segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Vivência de Medo




Em 1983, o jornalista alemão Gunter Wallraff publicou o seguinte anúncio nos jornais da então República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental) :” estrangeiro, robusto, procura qualquer tipo de trabalho, mesmo que seja muito pesado e sujo, mesmo que paguem pouco. Propostas sob nº358 458.”
Para tanto, disfarçou-se de turco, usou peruca com cabelos negros, bigode preto, lentes de contato escuras e documentos falsos.
Disfarçado de “estrangeiro”, vivenciou diversas experiências profissionais: operário em fabrico, em canteiro de obra, em usina nuclear (em serviços de maior exposição à radiação). Trabalhou também em pequenos serviços ( como reforma de estofados de cinema e tocador de realejo), além de ter sido funcionário da rede de fast food McDonald´s.
Em 1985, publicou o livro Cabeça de Turco: uma viagem nos porões da sociedade alemã, no qual descreve suas experiências e o cotidiano das minorias étnicas na Alemanha do início da década de 80.



Trecho da Obra:

(..) De vez em quando o ódio aos imigrantes revela-se abertamente. Quase sempre nas partidas internacionais. Fazia algumas semanas que se temia o pior durante o jogo Alemanha Ocidental x Turquia , realizado no Estádio Olímpico de Berlim, nesse verão de 1983.
Num tom claramente suplicante , Richard Von
Weizsacker dirigiu-se a todos pela televisão:” Vamos fazer deste jogo um exemplo da convivência pacífica entre Alemães e turcos em nossa cidade. Vamos transformá-lo numa prova de compreensão entre os povos”. Para tanto foi mobilizada uma força policial jamais vista.
Ainda como Ali, comprei um ingresso na arquibancada da torcida alemã. Queria aparecer como turco, tanto que levei um barrete com o emblema turco em uma pequena bandeira. Mas logo tive de dar sumiço nessas coisas. Fui parar bem no meio de um grupo de alemães neonazistas.
Neonazistas? É possível que, individualmente, sejam bons sujeitos, pelo menos a maior parte deles tem um rosto simpático, franco. Mas, juntos, na multidão, eram máscaras de histeria. Nesse dia, trêmulo, pela primeira e única vez, reneguei minha condição de turco: desisti de meu idioma estropiado e conversei com os fanáticos torcedores num alemão perfeito. Mesmo assim continuaram a me tomar por imigrante. Atiravam-me pontas de cigarro no cabelo e derrubavam cerveja em minha cabeça. Nunca, em toda a minha vida, senti tamanho alivio ao ver policiais passando perto de mim. Jamais sonhei que iria vê-los um dia como verdadeiro poder de ordem. Os torcedores gritavam: “Vitória”, morte aos Vermelhos!”. E um coro sem fim vociferava : “Turcos, vão embora do nosso país! A Alemanha para os alemães!” Felizmente não correu sangue: houve apenas pouco mais de feridos do que nas partidas “normais”.
Não quero nem imaginar o que teria acontecido se o time alemão perdesse. Não sou fanático por futebol. Porém ali, no Estádio Olímpico, eu berrava, incentivando o time da Alemanha. De puro medo. (...)

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